Ela era uma menininha franzina. Pequena comparada as demais. Porém cresceu, com muito mimo e amor. Só que sua mãe sempre perceberá algo estranho. Não sabia definir, pois não havia definição. A menina cresceu sem aperceber o seu jeito estranho de ser. Mas poderíamos pensar que todos somos estranhos, afinal não há uma só figurinha repetida nesse álbum de humanos. Se olharmos bem para o outro, sempre será bizarro. E a menina não notava nenhuma diferença tão grande que a fizesse excepcionalmente bizarra, mas ela era. Sim, ela era e sua mãe sempre percebeu. Mas não a contou, nunca. E a menininha descobriu, sempre se descobre.
A menininha antes de descobrir viveu. Viveu tudo o que podia, só que sempre faltava algo. Não para ela, mas para os outros. Para ela estava tudo mais do que suficiente, para os outros, muito menos. E esse desequilíbrio ficou muito explícito quando a menininha casou. Sim, ela casou. E seu marido também não comentou. Calou-se, assim como a sua mãe.
A menininha estava grávida. A médica, a qual sua ética não pode deixá-la omitir, disse que havia algo estranho, algo realmente bizarro. Mas ela não conseguia saber o que. Pois os exames não são muito claros. “Quando ela nascer saberemos”. Realmente, todos saberiam o que alguns já sabiam e outros nem suspeitavam.
No dia do parto, estavam todos lá. A menininha muito ansiosa, seu marido de um lado, sua mãe do outro, e toda a sua família. Muita expectativa.
Quando a médica tirou o menininho da menininha, ela não pôde acreditar.
O menininho estava pela metade. Só a perna esquerda, só o braço esquerdo, só o pulmão esquerdo, só meio coração.
Foi nesse momento que a menininha se apercebeu.
Tudo que ela fazia era pela metade.
Um comentário:
E quando nasce assim, como se faz pra deixar de fazer as coisas pela metade?
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