sábado, 27 de novembro de 2010

Era? Sou?


Não quero mais viver. Será que isso significa que quero morrer? Não, explico desde já que não. Quero ser platéia, quero assistir esse espetáculo que é a vida. Porém não quero ser ator, não nasci para isso, não é meu dom. Meu dom é não ter dom, é ser passiva, é observar, é nada fazer, não agir. Cansei, entende? Cansei de ser obrigada a fazer. Acredito que poderia até ter vontade se não existisse a obrigatoriedade. Quero ser, simples. Respirar, comer, dormir. Será que aguentarei viver desse modo? De um modo que não entendo? Digo que hoje vivo, vivo como vocês, para vocês, mas o que queria era só "respirar". Quando somos crianças "respiramos", não temos pressa, não temos objetivo.* Hoje, não ter direção é ser desorientado, alienado, por isso sou obrigada a ter, e tenho. *Quando acontece de eu não querer eu me sito mal. Por quê? Se eu não quero viver assim? Era para eu me sentir bem. Mas o fato é: tenho a necessidade de me sentir inserida, por isso faço. Queria tanto poder voltar no tempo, queria tanto só respirar. Mas já é tarde, o tempo passou. Não podemos mais brincar dizendo: "Agora eu era a professora e você o aluno.", "Agora eu era a bandida, mocinha, médica." Não, não! Agora eu não era, agora eu sou e ponto. O que eu sou? O que vocês exigirem de mim.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Nada.


Quando a disponibilidade chega a ansiedade em viver grandes momentos é tão grande que não vivenciamos nada.

Fica o vazio.

Vago.

O dia acaba.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Azar ou Sorte

cama, banho, trabalho, estudo, casa, banho, comida, cama.

frente, trás, direita, esquerda, cima, baixo.

música, filme.

cama, cadeira, chão, parede.

seco, molhado, seco, seco, molhado, molhado.

comida, bebida.

cama, banho, trabalho, estudo, casa, banho, comida, cama.

sorte, sorte, azar, azar, sorte, sorte, sorte, sorte.

Azar

Sorte

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A sombra


Ela estava andando na rua, naquele desânimo de sempre. Para ela estava tudo certo. Tudo tão certo que não tinha mais para que levantar toda manhã. Cada qual já estava em seu devido lugar. O andar era pesado, se arrastando e sacudindo os pés. Estava indo à padaria. O que iria comprar? Sei lá. Lá ela resolvia. Precisa sair daquele cubículo que um dia inventaram e disseram que era legal viver dentro. Ela não suportava o compactamento dos apartamentos. Tudo é reduzido ao mínimo possível. Inclusive a vida. A alegria. Para ela, não se pode ser completamente feliz em um apertamento. Felicidade, em dados momentos, é barulhenta. Não se pode fazer barulho, incomoda o vizinho. e o incômodo que ela sente em ter que ficar em silêncio, em não poder aumentar o som da vitrola e gritar feito uma louca? Esse não conta? Apertamento, não era com ela. Mas as circunstâncias levaram-na a morar em um. Estava na rua, era o que importava. Sentia o frescor do vento , e gostava. Olhando pra baixo pensou que poderia morrer. Se existe um lugar melhor, que ela vá logo, pensava. Uma mancha preta apareceu no asfalto, e a acompanhava. Era uma sombra relativamente grande. Olhou para cima. o sol a encandiou. Não conseguia enxergar o que era que estava fazendo aquela sombra. Ela não ia embora. Quanto mais depressa ela andava, mais a sombra a acompanhava. Mais uma tentativa. Ficou vendo pontinhos luminosos mesmo quando estava olhando pro asfalto. De cabeça baixa continuou, para poder observar ainda mais aquela sombra e tentar descobrir o que era. Quase bateu em um poste. a sombra a fez desviar.
Ela entendeu que por mais cabisbaixa que ela esteja sempre aparecerá motivo para continuar o caminho.