sexta-feira, 13 de maio de 2011

Cinco sentidos

Ela estava insegura. Não sabia mais o que fazer. Sentou na calçada, ficou olhando os carros passando, pessoas andando, cachorros virando o lixo, crianças gritando. Nada a abalava. Olhava tudo e não enxergava nada. Nada ficava para ser processado. Sentiu uma brisa fria, sentiu mas não absorveu. Não se abalou, nem moveu um músculo se quer. Com os cotovelos apoiados nas pernas e o queixo apoiado nas mãos passaram-se horas. E ela, imóvel. Como não sabia o que fazer, o melhor era ficar parada. Outro cachorro aproximou-se, cheirou-a e se afastou. Ela estava destinada a repelir, até os animais.

Ninguém, até o momento, parara para ajudá-la. Não que ela precisasse de ajuda. Não precisava. Mas ninguém sabia que ela não precisava, e mesmo assim não paravam. Estavam ocupados demais.

Começou a anoitecer, um gato se aninhou embaixo das suas pernas. Esse carinho não lhe trouxe conforto, pois suas pernas já estavam dormentes. Qualquer carinho, em qualquer parte do seu corpo, seria doloroso. Mas ela não se mexeu. Pelo menos estava sentindo dor. Dor pelo menos era um sentimento.

Ela tinha cinco sentidos, talvez seis. Nenhum servia. A visão não processava nenhuma imagem. O olfato não despertava nenhuma reação. O paladar há tempo que tinha defeito, só sentia o amargo. A audição estava cheia de ruídos, do seu pensamento. O tato não sentia nem frio, nem calor. Cinco sentidos inúteis.

Talvez o sexto fosse o único que estivesse funcionando. Talvez.

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