sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Mistério

Ela enxergava a possibilidade limítrofe do pior acontecer. A cada instante, em cada situação ela conseguia ver um desfecho desastroso da sua vida. essa sensação, que ela sempre trazia no peito, a entristecia por um dado momento. Gostaria de não sentir a angústia da possibilidade: coração apertado, nó na garganta, boca seca. Passou, o pior não aconteceu, mesmo ela enxergando com determinada clareza como seria. Essa outra sensação também a acompanhava. Esse frio que escorre do peito para os pés: alívio. Se fosse só esse, não incomodaria. Esse alívio a faz crer que ela é especial, o não acontecido a torna escolhida, sabe-se lá por quem, mas a torna. E ela é densa nas suas ações, ela é inteira, pois sempre leva a certeza do fim, do pesadelo. E esse não vem, então ela se dá ao direito de ser tudo de uma vez. Ela pode. Sua vida vai sendo sempre intensa e vivida e magnífica. Nunca o pior acontece. Vai ver que o mistério do bem viver está aí.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Ciclo


Uma desilusão iludida quer me convencer que não há pra quê.
Mas uma esperança esperançosa me anima e diz que a muito o que ser feito.
Um ânimo animado me toma e começo a me exaltar.
Um sonho sonhado volta a ser o caminho.
Até que o caminho longo volta a cansar.
Assim me canso dessa vida iludida
dessa vida esperançosa
dessa vida animada
dessa vida sonhada
dessa vida longa
dessa vida cansada.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Seres Estranhos


Uma Estrelinha vivia no céu. No meio de toda a escuridão ela brilhava muito, tanto que refletia em um planeta distante. Nesse planeta existiam seres bem esquisitos. Eles olhavam para cima e viam a escuridão. Só que existiam pontinhos brilhantes. Eles não sabiam o que eram. Ora esse pontinhos ficavam mais fortes, ora mais fracos. Os seres estranhos desejavam esses pontinhos brilhantes. Na verdade, alguns nem ligavam, não se davam nem ao trabalho de erguer o olhar. Outros admiravam, mas achavam injusto tê-los. ' A escuridão ficaria sem nenhum pontinho brilhante para se admirar. ', alguns pensavam. Porém, outros alguns, desejavam, queriam, almejam a possibilidade de tê-los. Queriam cuidar daquela luz para que ela se perpetuasse. Uns dariam todas as coisas estranhas que tinham para ter aquele brilho ao lado.
Uma Estrela, cansada da escuridão, se jogou nesse planeta distante. Caiu em um ombro estranho de um daqueles seres estranhos, mas caiu sobre um daqueles que não ligava para a luz na escuridão. Esse ser ainda bateu em seu estranho ombro para que aquela luz saísse. Não havia como. Depois que o brilho gruda ele não saí mais. O ser estranho, então, resolveu viver com aquilo, mas sem a menor intenção de dar-lhe atenção. O brilhinho disse a ele que seu nome era Estrela e que ela precisava de cuidado. O ser estranho, muito estranho, disse que não tinha tempo para essas bobagens de cuidado, carinho, amor. Ele tinha que juntar muito mais coisas estranhas nessa vida, e isso já levava todo o seu tempo.
Os outros seres estranhos, não tão estranhos, aqueles que dariam todas as suas coisas estranhas para cuidarem de uma estrelinha, não compreendiam. Como um ser estranho tem uma estrelinha no seu ombro estranho e a deixa perder o brilho? Simplesmente não entendem.
Mas é assim que os fatos se dão.
Sem compreensão.