terça-feira, 3 de abril de 2012


Dentro de uma tempestade não enxergamos nada. O máximo que conseguimos ver são as pequenas partículas da poeira, mas não entendemos o que ela significa nem o que representa. Perdidos, dentro da turbulência, não sentimos direito, não avaliamos direito, nem nos percebemos direito.
Passamos um tempo considerável enxergando o embaçado, tanto tempo que começamos a acreditar que as coisas são assim mesmo. Aquela branquidão sobreposta a tudo que olhamos se torna natural e comum. Até o nosso olhar no espelho não é límpido, na verdade, principalmente ele. Ele é até mais fosco do que o nosso olhar sobre os demais.
Chega o momento de andarmos e sairmos desse tufão que nos rodeia e o céu começa a ficar tão claro que não enxergamos nada com clareza. Porém a clareza que falta agora não é a clareza de outrora. É uma clareza surpreendente, uma clareza que por certo tempo nos paralisa também e não sabemos o que fazer. Tantas sensações novas que não nos reconhecemos; tantas novas maneiras de perceber a si e o outro que não sabemos andar e, por alguns instantes, desejamos a cegueira anterior. Não existe uma maneira de voltar, o tornado passou e a poeira se foi.
E agora? Como vamos agir? Temos que aprender quem somos agora. Sentir nos deixa preso a boas sensações que desejamos repeti-las a qualquer custo, e esse afobamento, essa pressa em querer tudo pra já, de querer tudo o que não sabíamos que poderia ser possível, essa agonia, essa sensação adolescente de que a vida pode acabar amanhã e que não teremos tempo de viver como gostaríamos, faz com que rodemos em torno de nós mesmos, rodamos tanto e com tanto desespero do querer que aquela poeira começa a se levantar novamente, e começamos a perder a serenidade que nos oferece o enxergar, o compreender do todo.

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