Dentro de uma tempestade não
enxergamos nada. O máximo que conseguimos ver são as pequenas partículas da
poeira, mas não entendemos o que ela significa nem o que representa. Perdidos,
dentro da turbulência, não sentimos direito, não avaliamos direito, nem nos
percebemos direito.
Passamos um tempo considerável
enxergando o embaçado, tanto tempo que começamos a acreditar que as coisas são
assim mesmo. Aquela branquidão sobreposta a tudo que olhamos se torna natural e
comum. Até o nosso olhar no espelho não é límpido, na verdade, principalmente
ele. Ele é até mais fosco do que o nosso olhar sobre os demais.
Chega o momento de andarmos e
sairmos desse tufão que nos rodeia e o céu começa a ficar tão claro que não
enxergamos nada com clareza. Porém a clareza que falta agora não é a clareza de
outrora. É uma clareza surpreendente, uma clareza que por certo tempo nos
paralisa também e não sabemos o que fazer. Tantas sensações novas que não nos
reconhecemos; tantas novas maneiras de perceber a si e o outro que não sabemos
andar e, por alguns instantes, desejamos a cegueira anterior. Não existe uma
maneira de voltar, o tornado passou e a poeira se foi.
E agora? Como vamos agir? Temos
que aprender quem somos agora. Sentir nos deixa preso a boas sensações que
desejamos repeti-las a qualquer custo, e esse afobamento, essa pressa em querer
tudo pra já, de querer tudo o que não sabíamos que poderia ser possível, essa
agonia, essa sensação adolescente de que a vida pode acabar amanhã e que não
teremos tempo de viver como gostaríamos, faz com que rodemos em torno de nós
mesmos, rodamos tanto e com tanto desespero do querer que aquela poeira começa
a se levantar novamente, e começamos a perder a serenidade que nos oferece o
enxergar, o compreender do todo.
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